Ledo Engano
Ou a licença para a desculpa.
Ledo Engano (02/05/2026)
Ledo engano. Quantas vezes na minha infância ouvi essa expressão sem ao menos imaginar o que ela significava. Para mim, era simplesmente um engano. E continua sendo.
Quantos resultados podem ter ocorrido em nossa História devido a ledos enganos?
Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito…
Aparentemente foi Camões quem primeiro juntou as duas palavras e inventou o que depois foi usado universalmente para que alguém que se enganasse pedisse desculpas. Embora a palavra ledo tenha o significado de alegria, júbilo, felicidade, contente ou risonho, quando somada ao engano ela se torna uma coisa muito perigosa.
Alguns documentos citam que Colombo pisou na América por ledo engano porquê pensava ter alcançado a Índia. Alguns relatos de guerra usam a mesma impressão quando o vitorioso deixa cair a ficha de que tinha ganho a batalha e descobre tarde demais que era uma armadilha. Tira-se a culpa do camarada e deixa-se leve a palavra engano.
E na nossa pobre e podre política? Na política brasileira e latino-americana, muitos pactos foram selados sob a alegria de alianças que se provaram cegas e duraram apenas o tempo que a fortuna permitiu. Fortuna aqui deve ser lida como destino. Quantos governantes não acreditaram piamente que tinham o controle do Congresso movidos pelo júbilo de maiorias construídas sobre areia? É o engano ledo e cego de achar que a fidelidade política dura mais do que o orçamento ou o interesse do momento.
Muitos líderes latinos, surfando em ondas de commodities em alta com a fortuna soprando a favor, acreditaram que o modelo seria eterno. Quando o ciclo econômico virou, o ledo engano de que a bonança era mérito pessoal e não sorte do destino cobrou um preço altíssimo das populações. No Brasil, temos uma coleção de pactos selados com toda a alegria e júbilo que descrevemos, mas que duram apenas o tempo de uma eleição ou de um escândalo. A elite política parece viver nessa Inês de Castro permanente: posta em sossego enquanto o destino já amola o machado.
Quando eu digo política pobre e podre, eu emito uma opinião. A pobreza talvez venha dessa falta de visão histórica e a podridão justamente do uso desse ledo engano como ferramenta. Engana-se o povo com o júbilo de promessas sabendo que o engano é, na verdade, um projeto.
Em As Veias Abertas da América Latina, o que vemos são séculos de ledos enganos impostos ou auto impostos. Neles, a alegria de uns poucos é construída sobre a cegueira em relação à realidade da maioria. Recentemente temos, em ambos os lados da linha partidária imaginária, ledos enganos a rodo. O que é alegria pela conquista de um lado hoje é massacrada pelo ardil do outro e vice-versa.
E quem está no meio dos ledos enganos? Nós, que vivemos dos atos políticos que nós mesmos elegemos. Hoje vale mais uma redução de pena de criminosos contumazes do que a redução de uma escala de trabalho que faria com que os trabalhadores tivessem direito a aproveitar o fruto de seu trabalho com descanso e saúde mental.
Ledos enganos provocam invariavelmente tiros no próprio pé. Um dia ele se vira contra você. Um dia dirão a você: quem mandou votar em fulano ou quem mandou votar em sicrano? Ou então perguntarão: por que você vota?
Só falta um dia nos perguntarem o porquê de vivermos se é tudo um ledo engano.
Observação: na literatura, a palavra fortuna significa destino ou sorte. E isso se aplica a todo este texto.


Espero que os brasileiros não cometam ledo engano nas eleições vindouras…. Abraço, amigo